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A Moda da Cesta Tradicional Portuguesa.


moda da cesta portuguesa

Quem diria que a cesta de palha que os seus avós levavam para o campo com os lanches; aquela seira de verga para as compras que a sua mãe tinha pelos cantos da casa; ou talvez até você, que relembra com carinho a alcofa dos piqueniques em família e a seira da praia - alguma vez diriam que o cesto 'dos pobres' se tornaria hoje um artigo de moda para 'os ricos'?


Cesta Made In Portugal ganhou um novo valor - coisa que, aqui entre nós se quer que lhe diga, já vem tarde. Mas antes tarde que nunca. A questão é: como explicamos a radical diferença de preço do antigamente, para os dias de hoje, sendo que a origem é a mesma - Made in Portugal - e aos olhos de muitos, pouco mudou além do preço.


Deixe-me desde já clarificar que, na realidade, muito se mudou na cestaria portuguesa. Onde? Aquilo que não se vê no produto, mas que o produtor sente: a base de trabalho; a forma de trabalhar as artes e ofícios de Portugal, e do Mundo.


Como? Vejamos, e se eu lhe dissesse que:


Estas cestas tradicionais de vime são a razão do fim do artesanato português.


cesta palha tradicional portuguesa

Não acredita? Vou fundamentar a minha observação.


Repare no seguinte: o fim do feito-à-mão está a chegar a passos largos. E a culpa disso mesmo não é dos jovens por não quererem aprender as artes ancestrais dos antigos.


E não: também não podemos culpar a dificuldade envolvida no trabalho artesanal. Profissões que exigem o melhor de nós ou que são difíceis de aprender ainda hoje existem e não é por isso que entram em risco de extinção.


E também não se pode apenas responsabilizar o boom da Revolução Industrial ou dos chineses. Existe em cada um de nós uma cota parte de culpa.


Posso falar enquanto 1º pessoa: se formos perguntar à Esperança Vitória de 17 anos, a razão pela qual desistiu à primeira oportunidade do artesanato e herança familiar que aprendeu quando ainda nem sabia ler?


A resposta da jovem Esperança estaria na ponta da língua:


- Porque não é sustentável viver do artesanato. Porque não é remunerado. Não faço descontos. Porque não terei um futuro estável a dar aos meus filhos nem uma reforma para a velhice.

Ponha-se no lugar da jovem Vitória: se visse os seus pais toda a vida a sobreviver de uma arte que não chegava para pagar as contas e pôr a comida em cima da mesa - apesar das 3 filhas ajudarem a tecer cestas -, a trabalhar no artesanato enquanto complemento ao ordenado da fábrica onde trabalhavam a tempo inteiro, você iria querer viver da mesma maneira que os seus pais sobreviveram?


E se perguntarmos à Esperança de 17 anos se gostava da sua arte?


- Não. Sempre foi feita como uma obrigação de família.

Todos os nossos tempos livres, quando não estávamos na escola, eram a tecer cestas enquanto ouvíamos os nossos amigos a brincar na rua. O meu pai vendia as suas cestas a um senhor que as re-vendia nas feiras, e na altura numa seira de 10 ou 15€, o feirante conseguia ter margens de lucro de mais de 100% sem qualquer trabalho envolvido, em comparação ao meu pai que as fez, ou as feitas por mim e pelas minhas irmãs mais velhas que recebíamos o que se apresentava à mesa na hora de comer.


A pequena Vitória quando fosse grande queria ser professora.


Adorava estudar e aprender, mas apenas o podia fazer na escola. Na altura, a educação era obrigatória apenas até ao 6º ano. Quando a escolaridade obrigatória acabou, queria continuar mas o destino assim não permitiu. Estive 2 anos a trabalhar na cestaria da família a tempo inteiro, sem remuneração, até aos 17 anos sair de casa e ir trabalhar para uma fábrica de loiça, e por mais de 20 anos não teci uma única cesta tradicional portuguesa, apesar de os meus pais terem feito o artesanato até ao último sopro de força.


E quem me pode culpar? Quem retornaria? Nestas condições: ninguém.


tradição familiar portuguesa

A minha história de família não lhe chega para fundamentar a observação do fim do artesanato?

Então vamos partilhar a história dos outros:


Em conversa com uma colega artesã no último mercado de design que tivemos oportunidade de participar - Coimbra hype market - esta confessou que não tem atividade ou empresa aberta na segurança social ou finanças. Se assim tivesse, o preço das suas peças teriam de ser muito superior, e tem medo de não conseguir vender nada se assim for, pois já hoje tem dificuldade em vender ao preço ‘acessível’ e pagar as contas.


Ora vejamos:


O que é um preço acessível?


Trata-se de uma percepção subjetiva de valor. Passo a citar o parágrafo do artigo do professor especializado em Gestão de Conflitos e Desenvolvimento Humano, Danilo Miguel:


No filme "Joy: o nome do jogo" (se ainda não viu, faça-o urgentemente!), um executivo de uma cadeia de lojas, Neil Walker, interpretado por Bradley Cooper, diz à protagonista a seguinte frase: "Eu vendo produtos a um preço acessível, mas não vendo produtos baratos." Uau!

Nada na vida é caro. Tudo é uma percepção do que tem, ou não, valor para nós enquanto indivíduos.


Eu posso valorizar uns chinelos de casa feitos de lã da ovelha bordaleira, uma raça exclusiva e típica da nossa linda Serra da Estrela, produzidas nacionalmente através de uma arte ancestral derivada da nossa cultura portuguesa, feitas pela maravilhosa marca sustentável de mãe e filha BORDALEIRAS, e pagar o justo valor que rondam os 86€, enquanto para si, qualquer pantufa serve para andar por casa e não faz sentido investir esse preço nuns chinelos.


Mas faz sentido investir na nossa arte, cultura e identidade Made in Portugal? Especialmente quando falamos de uma arte em extinção, hoje salvaguardada por alguns velhos sábios de uma associação da terra que esta marca está a tentar reinventar e manter viva ao criarem uma razão para a existência da próxima geração de artesãos bordaleiras?



Retornando ao tópico principal:


Como convencer os jovens a preservar uma arte que não sustenta a sua família?!


Ao fazer do antigo, de uma maneira nova. E não falo da produção de trabalho - mas dos métodos, filosofia e direitos do trabalhador que por décadas não foram assegurados no artesanato! (E que ainda hoje não são, a começar pelo próprio artesão e os seus medos).


E é por essa razão que o preço da cesta tradicional portuguesa da sua avó, em nada tem a ver com o preço das cestas que encontra hoje. Porque se queremos ter arte e cultura portuguesa nos dias de amanhã, temos de urgentemente reinventar a roda e tornar possível a sustentabilidade do artesanato, para que possa estar presente no futuro.


E quem fala da nossa cesta tradicional portuguesa, fala da nossa lã, da nossa cerâmica, dos nossos sapatos: quanta arte com cunho made in Portugal está perdida?


Numa recente reportagem que a Victoria Handmade fez à RTP1 - que pode assistir no YouTube (aqui) -, faço das palavras da minha filha Daniela, minhas:


Temos tendência em apenas valorizar o que é nosso quando o vemos em exposição num museu. E eu não quero ver esta arte num museu. Eu quero que ela saia das nossas mãos para as suas. Que esteja em sua casa.

Como se houvesse orgulho em ver uma arte que morreu exposta num museu que por fim tenta dar valor ao que se perdeu.


*Reveja a entrevista na íntegra ao clicar na imagem abaixo*



Em cada uma das nossas obras-primas, comprovamos que sim: é possível as artes ancestrais coexistirem num mundo moderno.


Onde cada obra-prima proporciona uma razão para a existência da próxima geração de artesãos portugueses.


Hoje o público fala do preço do artesanato como se este antigamente fosse o certo, o justo. Queixando-se dos valores de hoje. E não entendem que para sair barato a quem compra, sai muito caro a quem faz. E, quando quem faz, deixar de fazer - não há nada para comprar, não importa o seu preço.


Para quem defende que nós, marcas portuguesas sustentáveis, não temos preços para todos, para o nosso povo português poder adquirir, a minha resposta é algo controversa, mas verdadeira e sincera: eu também não tenho capacidade de mãos para produzir para todos.


Meta mais pessoas, para produzir mais. - dizem eles.

Mais pessoas são mais ordenados, descontos, despesas - mais custos, que se irão refletir no preço dos meus produtos.

O artesanato não é um produto industrial, que aí sim, quanto mais se produz mais barata fica a produção e consequentemente, o artigo!


Temos de compreender que nos dias de hoje o artesanato é mais ''caro'' que antigamente, sim. Porque tem de o ser.  Porque não é possível continuar a trabalhar nos mesmos moldes de antigamente, num mercado paralelo por baixo do pano que nos levou onde estamos hoje: à beira do esquecimento.


E compreender também que tem de haver em nós, consumidores, esta responsabilidade de saber viver com menos, com a consciência que menos é ter mais. Que investir em qualidade, é na realidade poupar.


E esta é a verdadeira razão do fim das artes e ofícios em Portugal: A (des)Valorização do Artesanato.


Título de um artigo antigo, mas que continua atual aos tempos de hoje, que pode ler no nosso diário aqui. Este relata várias histórias e tradições de Portugal exploradas internacionalmente a preços e margens de mais de 400% por designer's estrangeiros em comparação ao que ganham os produtores portugueses e artistas que criam as estas obras-primas para os outros lucrarem com elas lá fora.


Finalizo com um apelo: da próxima vez que virar a etiqueta de um produto e o achar caro, olhe de novo e veja o valor que este tem. Não o preço. O valor.


Este artigo não tem como propósito justificar, mas sim apelar à compreensão, dar noção da realidade da nossa cultura, pois tem sido a ignorância que tem levado muito bom nome de Portugal ao esquecimento.


Leu até aqui? Partilhe a sua opinião em relação a este assunto na secção de comentários abaixo. Quero muito ouvir a sua história.


Gratidão por fazer parte da nossa família,

Esperança Vitória,

Artesã, Fundadora e CEO Victoria Handmade.


tradição portuguesa cestas praia palha alcofa de compras

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